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Artigo baseado nas discussões e evidências científicas apresentadas no 14º Congresso Paulista de Geriatria e Gerontologia (GERP 2026)
Resumo: O envelhecimento populacional contemporâneo exige que os profissionais do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) transcendam a visão biomédica. Este artigo discute a longevidade sob lentes filosóficas e sociológicas, integrando autores como Simone de Beauvoir e pensadores brasileiros como Guita Debert e Alexandre Kalache. Propõe-se uma mudança de paradigma: a transição do foco no diagnóstico para o foco na funcionalidade, autonomia e construção de sentido.
O “triunfo demográfico” — termo que designa o sucesso das condições de saúde no aumento da expectativa de vida — apresenta uma contradição ética. No cotidiano do Serviço Social, observamos que o maior sofrimento não é a finitude, mas viver muito tempo sem conseguir “habitar” a própria vida. Como ensinou Hipócrates há 2.500 anos, o que permanece ativo envelhece com saúde, enquanto o inútil adoece. No contexto social, o idoso invisibilizado pela rede de proteção adoece pela ausência de papel social.
Para que a prática técnica não se torne mecânica, é preciso compreender as diferentes formas de valorizar a vida estendida:
Em sua obra clássica A Velhice, Simone de Beauvoir adverte que a longevidade sem projetos é uma “irrisória paródia da existência”. Ela denuncia que a sociedade valoriza o indivíduo apenas enquanto ele é produtivo. Para Beauvoir, a solução é o engajamento: continuar a perseguir fins que deem sentido à vida, como a dedicação à coletividade e causas sociais.
Na Prática da Média Complexidade: Os planos de acompanhamento devem fomentar o protagonismo. No âmbito do SUAS, isso significa retirar o idoso da posição de “objeto de cuidado” para “sujeito de direitos”, promovendo sua participação política e social.
Para enriquecer esta prática, somamos a perspectiva de autores nacionais:
O “Dilema de Makropulos” nos recorda que uma vida infinita sem urgência esvazia o valor do presente. A morte é o que dá moldura ao desejo. Portanto, nossa intervenção não deve focar na “manutenção da vida” a qualquer custo, mas na qualidade do sentido. A proposta é uma mudança de eixo:
– Da Doença para a Funcionalidade: O que o idoso ainda consegue e deseja realizar?
– Da Cura para a Relação: Priorizar o vínculo e o propósito sobre a técnica fria.
– Da Intervenção para a Autonomia Ética: Respeitar o direito do idoso de governar sua própria história, combatendo a infantilização.
Agência: Capacidade do indivíduo de agir de forma independente e fazer escolhas livres.
Dilema de Makropulos: Reflexão filosófica sobre a apatia e o esvaziamento de sentido que adviriam de uma vida sem fim.
Envelhecimento Ativo (Kalache): Processo de otimização das oportunidades de saúde, participação e segurança.
Média Complexidade (SUAS): Serviços voltados a indivíduos com direitos violados, mas cujos vínculos familiares ainda persistem (Ex: CREAS).
Olfato Social: Metáfora para a influência e a marca invisível que uma pessoa deixa em sua rede comunitária e geracional.
Pós-Self: A identidade simbólica e o legado que se perpetuam nas próximas gerações.
Reprivatização da Velhice (Debert): Fenômeno social de devolver ao âmbito privado (família) a responsabilidade exclusiva pelo bem-estar do idoso.
BEAUVOIR, Simone de. A Velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. DEBERT, Guita Grin. A Reinvenção da Velhice. Rio de Janeiro: FGV, 1999. KALACHE, Alexandre. O mundo envelhece: é preciso preparar o cenário. Ciência & Saúde Coletiva, 2008. BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social. Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais. Brasília, 2009.