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A Longevidade como Questão de Proteção Social: Entre o Sentido e o Direito

Autor: CEI Campinas Data: 9/06/2026

Artigo baseado nas discussões e evidências científicas apresentadas no 14º Congresso Paulista de Geriatria e Gerontologia (GERP 2026)

 Resumo: O envelhecimento populacional contemporâneo exige que os profissionais do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) transcendam a visão biomédica. Este artigo discute a longevidade sob lentes filosóficas e sociológicas, integrando autores como Simone de Beauvoir e pensadores brasileiros como Guita Debert e Alexandre Kalache. Propõe-se uma mudança de paradigma: a transição do foco no diagnóstico para o foco na funcionalidade, autonomia e construção de sentido.

Introdução: O Direito de Habitar o Próprio Tempo

O “triunfo demográfico” — termo que designa o sucesso das condições de saúde no aumento da expectativa de vida — apresenta uma contradição ética. No cotidiano do Serviço Social, observamos que o maior sofrimento não é a finitude, mas viver muito tempo sem conseguir “habitar” a própria vida. Como ensinou Hipócrates há 2.500 anos, o que permanece ativo envelhece com saúde, enquanto o inútil adoece. No contexto social, o idoso invisibilizado pela rede de proteção adoece pela ausência de papel social.

1. Perspectivas Éticas e o Valor da Experiência

Para que a prática técnica não se torne mecânica, é preciso compreender as diferentes formas de valorizar a vida estendida:

  • Consequencialismo: O valor é cumulativo; mais tempo biológico deve significar mais soma de experiências e afetos.
  • Comunitarismo: A longevidade é uma narrativa estruturada pelo papel social do idoso como elo entre gerações.
  • Epicurismo: Foco na paz no momento presente. Em casos de violação de direitos, a prioridade é a cessação da violência para que o “agora” seja habitável.

2. O Engajamento e a Crítica à Invisibilidade

Em sua obra clássica A Velhice, Simone de Beauvoir adverte que a longevidade sem projetos é uma “irrisória paródia da existência”. Ela denuncia que a sociedade valoriza o indivíduo apenas enquanto ele é produtivo. Para Beauvoir, a solução é o engajamento: continuar a perseguir fins que deem sentido à vida, como a dedicação à coletividade e causas sociais.

Na Prática da Média Complexidade: Os planos de acompanhamento devem fomentar o protagonismo. No âmbito do SUAS, isso significa retirar o idoso da posição de “objeto de cuidado” para “sujeito de direitos”, promovendo sua participação política e social.

3. A Visão Brasileira: Do Envelhecimento Ativo à Memória

Para enriquecer esta prática, somamos a perspectiva de autores nacionais:

  1. Alexandre Kalache e o Envelhecimento Ativo: Kalache propõe que a longevidade seja amparada por quatro pilares: Saúde, Participação, Aprendizado e, fundamentalmente, Proteção. Não há envelhecimento ativo sem segurança social.
  2. Guita Grin Debert e a Reinvenção da Velhice: Debert alerta para a “reprivatização da velhice”, quando o Estado transfere a responsabilidade do cuidado apenas para as famílias. Sua linha de estudo é vital para o assistente social que atua na rede, garantindo que o cuidado seja uma responsabilidade pública e compartilhada.
  3. Ecléa Bosi e a Memória Social: Bosi estuda o idoso como guardião da memória. Isso dialoga com o conceito de Pós-Self (imortalidade simbólica): a marca (ou “olfato social”) que o indivíduo deixa na comunidade. O idoso que narra sua história exerce uma função social indispensável.

4. O Dilema de Makropulos e a Mudança de Eixo

O “Dilema de Makropulos” nos recorda que uma vida infinita sem urgência esvazia o valor do presente. A morte é o que dá moldura ao desejo. Portanto, nossa intervenção não deve focar na “manutenção da vida” a qualquer custo, mas na qualidade do sentido. A proposta é uma mudança de eixo:

– Da Doença para a Funcionalidade: O que o idoso ainda consegue e deseja realizar?

– Da Cura para a Relação: Priorizar o vínculo e o propósito sobre a técnica fria.

– Da Intervenção para a Autonomia Ética: Respeitar o direito do idoso de governar sua própria história, combatendo a infantilização.

Glossário Técnico

Agência: Capacidade do indivíduo de agir de forma independente e fazer escolhas livres.
Dilema de Makropulos: Reflexão filosófica sobre a apatia e o esvaziamento de sentido que adviriam de uma vida sem fim.
Envelhecimento Ativo (Kalache): Processo de otimização das oportunidades de saúde, participação e segurança.
Média Complexidade (SUAS): Serviços voltados a indivíduos com direitos violados, mas cujos vínculos familiares ainda persistem (Ex: CREAS).
Olfato Social: Metáfora para a influência e a marca invisível que uma pessoa deixa em sua rede comunitária e geracional.
Pós-Self: A identidade simbólica e o legado que se perpetuam nas próximas gerações.
Reprivatização da Velhice (Debert): Fenômeno social de devolver ao âmbito privado (família) a responsabilidade exclusiva pelo bem-estar do idoso.

Referências Bibliográficas

BEAUVOIR, Simone de. A Velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. DEBERT, Guita Grin. A Reinvenção da Velhice. Rio de Janeiro: FGV, 1999. KALACHE, Alexandre. O mundo envelhece: é preciso preparar o cenário. Ciência & Saúde Coletiva, 2008. BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social. Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais. Brasília, 2009.