sexta-feira, 26 de junho de 2026

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O evangelho das boas intenções: réquiem para o Estado amador

Autor: CEI Campinas Data: 26/06/2026

Ah, o doce e inebriante charme das boas intenções! Há quem acredite, na sua mais terna inocência (ou na sua mais cínica preguiça), que para gerir a máquina pública basta um coração aquecido e um sorriso piedoso. Política pública? Um mero detalhe burocrático que se resolve com tapinhas nas costas e cestas básicas distribuídas em época de eleição.

Mas a realidade, infelizmente para os amadores, não se comove com sorrisos.

Políticas públicas são a arquitetura da nossa sobrevivência coletiva. Exigem prancheta, método, suor técnico e, acima de tudo, um escrutínio crítico e libertário. Não há espaço para o improviso de quem trata o orçamento público como o caixa de uma quermesse. O amadorismo no poder não é um tropeço; é um projeto de manutenção do abismo.

Quando adentramos as trincheiras da Assistência Social, o crime do improviso torna-se hediondo. Em um Brasil rasgado por contradições centenárias — onde a miséria é um projeto bem-sucedido e a desigualdade é o cimento das nossas instituições —, a assistência não pode ser um curativo frouxo. Ela tem que ser um pé de cabra.

Ela precisa ser, na sua essência e na sua execução, emancipatória.

Aquele que tem fome tem pressa, é verdade. A caridade, o assistencialismo cívico e a filantropia têm o seu lugar de honra diante da emergência, do frio que corta a pele e do estômago que ronca. Mas a caridade é o privilégio de quem escolhe doar; o Estado não tem o direito de escolher.

O que se exige dos serviços executados pela mão estatal não é compaixão moralista. O Estado não faz favor, o Estado garante direitos. Ele não dá esmolas, ele paga dívidas históricas.

Para isso, o serviço público precisa ser cirúrgico, laico e profundamente crítico. Não cabe a catequese disfarçada de acolhimento. Não cabe o messianismo de gabinete. O cidadão vulnerável não precisa de um salvador da pátria que lhe exija gratidão subserviente; ele precisa de uma rede técnica e robusta que lhe devolva a cidadania roubada.

Chega da puxadinho-cracia. Que a sopa quente aplaque a fome de hoje, mas que a técnica, a laicidade e a crítica do Estado destruam as correntes que geram a fome de amanhã. O resto? O resto é só poesia ruim escrita com o sofrimento alheio.


Leonardo Duart Bastos é psicólogo, professor, pesquisador e gestor, atuando como Presidente e Superintendente do Centro Educacional Integrado (CEI Campinas). Com décadas de experiência na intersecção entre saúde mental e assistência social, dedica sua prática à construção de políticas públicas laicas e emancipatórias. Sua produção teórica e atuação institucional refletem um compromisso crítico com a superação das desigualdades, sempre pautadas pelo rigor técnico em oposição ao assistencialismo amador.