Eu não escrevo apenas como Diretor. Escrevo como homem e como testemunha diária da força feminina que sustenta esta instituição.
Enquanto Diretor do CEI Campinas, tenho o dever de vir a público. Não para fazer notas de repúdio protocolares, mas para expressar a fúria e a indignação que circulam em nossos corredores. Lidero uma organização composta por 90% de mulheres. Mulheres que são a alma do nosso trabalho, que seguram a mão de quem precisa, que transformam realidades.
Por isso, cada feminicídio noticiado, cada história de agressão que chega até nós, não é uma estatística distante. É um ataque direto a quem somos. É um ataque à minha equipe, às nossas assistidas, às nossas colegas.
Vejo diariamente o esforço hercúleo das nossas profissionais. E me revolta saber que a sociedade, hipocritamente, espera que o “cuidado” seja um dom natural da mulher, uma “extensão do lar,” e não um trabalho técnico e exaustivo que merece reconhecimento.
Esta estrutura coloca sobre os ombros delas o peso do mundo, enquanto retira delas a segurança básica de existirem sem medo. Aqui no CEI, lutamos para valorizar quem cuida, mas sabemos que lutamos contra uma maré histórica de submissão que precisa acabar.
Do meu lugar de gestão, não posso ignorar que a violência tem cor e classe social. O feminicídio é o final trágico de uma cadeia de opressões que atinge com brutalidade ainda maior as mulheres negras e periféricas. O nosso combate à violência de gênero tem de ser, obrigatoriamente, um combate antirracista e pela justiça social. Não há meia liberdade.
Como homem à frente desta instituição, faço um apontamento crítico aos meus pares. O machismo que mata mulheres é o mesmo sistema que nos desumaniza. Ele nos ensina que virilidade é violência, que sensibilidade é fraqueza.
O machismo tem feito mal também aos homens, aprisionando-nos em ciclos de agressividade e silêncio emocional. Mas isso não é desculpa; é um chamado à responsabilidade. Precisamos ter a coragem de romper esse pacto. Precisamos ser homens capazes de conviver, respeitar e proteger, não por cavalheirismo ultrapassado, mas por ética humana.
O CEI Campinas não tolerará o silêncio. A nossa revolta é o combustível para a nossa luta.
Atenciosamente,
Leonardo Duart Bastos
Presidente do CEI Campinas
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