Hoje, a cidade de Campinas vivencia o feriado municipal do Dia do Evangélico. Para o CEI Campinas (Centro Educacional Integrado) — uma organização firmemente constituída sobre os pilares de ser laica, plural e inclusiva —, esta data não representa apenas uma marcação no calendário, mas uma oportunidade profunda de reflexão sobre a liberdade humana, a história e o respeito às múltiplas formas de existir e crer.
Uma instituição laica não é aquela que ignora ou apaga a fé, mas exatamente aquela que garante o terreno seguro para que todas as crenças (e a ausência delas) possam coexistir em harmonia. É sob esse princípio fundamental que rendemos nossa homenagem à comunidade evangélica.
Para compreender a força desta data, é preciso olhar para a raiz das palavras. O termo “evangélico” deriva do grego euangelion (onde eu- significa “bom” e -angelion significa “mensagem” ou “notícia”). Historicamente, o evangelho é a “boa nova”.
Em uma análise mais ampla, trazer uma boa nova é, em sua essência, um ato de esperança e transformação. No contexto do século XVI, essa busca pela essência da mensagem culminou na Reforma Protestante, um movimento religioso e social que abalou as estruturas do mundo ocidental. Naquele momento histórico específico, a Reforma foi, acima de tudo, um grito por liberdade. Ela representou a ruptura de um monopólio de pensamento e a defesa de que a consciência individual deveria ser livre para interpretar, ler e se relacionar com o sagrado sem intermediários absolutistas.
Falar sobre o legado de Martinho Lutero e dos reformadores não é, de forma alguma, uma ofensa a outras tradições; pelo contrário, é reconhecer um marco histórico da humanidade. Ao reivindicar a liberdade de consciência e a descentralização do poder religioso, o movimento iniciado por Lutero plantou sementes valiosíssimas que, séculos depois, floresceriam na própria ideia de liberdade religiosa e de Estado Laico.
A quebra daquela hegemonia abriu caminho para entendermos que a sociedade é múltipla. Os “herdeiros de Lutero” — que hoje compõem a rica e diversa comunidade evangélica brasileira e campineira — carregam em sua origem histórica a marca dessa busca por um espaço onde a fé pudesse ser exercida em liberdade.
O CEI Campinas compreende que a riqueza da nossa comunidade reside na sua diversidade. Valorizar a liberdade religiosa é defender o direito inalienável que cada sujeito tem de buscar sentido para a sua vida, seja na filosofia, na ciência, na arte ou na fé.
Neste feriado, saudamos a comunidade evangélica de Campinas. Que a lembrança histórica da Reforma nos inspire a continuar quebrando as correntes da intolerância, garantindo que o respeito à diversidade seja, sempre, a nossa melhor e mais transformadora “boa nova”.
Leonardo Duart Bastos é psicólogo, professor, pesquisador e gestor, atuando como Presidente e Superintendente do Centro Educacional Integrado (CEI Campinas). Com décadas de experiência na intersecção entre saúde mental e assistência social, dedica sua prática à construção de políticas públicas laicas e emancipatórias. Sua produção teórica e atuação institucional refletem um compromisso crítico com a superação das desigualdades, sempre pautadas pelo rigor técnico em oposição ao assistencialismo amador.
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