A cegueira seletiva da Justiça e a hipocrisia de uma sociedade que prefere encarcerar a educar.
É preciso ter coragem para dizer o óbvio: a balança da Justiça brasileira está viciada. Ela não pesa atos, ela pesa contas bancárias, endereços e a cor da pele. Vivemos sob a égide de um sistema penal esquizofrênico, desenhado por uma elite que legisla em causa própria e que criminaliza a sobrevivência enquanto institucionaliza a impunidade do colarinho branco.
Não se trata aqui de fazer apologia ao crime ou de isentar o indivíduo de suas responsabilidades éticas. O crime fere, o crime assusta e o crime deve ser combatido. A questão, todavia, é a ineficácia brutal do remédio que estamos aplicando. Temos uma estrutura que prende quem furta para comer com um rigor draconiano, enquanto trata com luvas de pelica o desviador de milhões dos cofres públicos — aquele cuja caneta mata muito mais do que um revólver, ao retirar recursos da saúde e da educação.
Como nos alertou o sociólogo Loïc Wacquant, vivemos a era da “punição da pobreza”. Na periferia, o peso da lei é esmagador. Lá, o Estado chega primeiro com o coturno e a viatura, raramente com a escola ou o saneamento. O jovem da favela, muitas vezes sem acesso a uma defesa digna, é processado e condenado em tempo recorde.
Enquanto isso, nos bairros nobres, o crime é blindado por bancas de advogados milionárias que operam nas brechas de um código arcaico, transformando a prescrição na verdadeira absolvição. A lei, que deveria ser um manto igualitário, torna-se uma teia de aranha: como dizia o escritor Eduardo Galeano, ela captura as moscas pequenas, mas deixa passar os gigantes.
O sistema promete “reabilitar”, mas entrega “barbárie”. Michel Foucault, em sua obra Vigiar e Punir, já denunciava que a prisão, longe de corrigir, serve como uma fábrica de delinquentes. Ao invés de um espaço de reflexão e reconstrução, nossos presídios são depósitos humanos, universidades do crime onde o sujeito entra por um delito leve e sai pós-graduado em facções, endividado com o crime organizado e com o espírito quebrado.
Dizer que a reabilitação é difícil para quem já fez do crime uma carreira é um fato. Mas é uma desonestidade intelectual ignorar que nós criamos o terreno fértil para isso. Ignoramos os processos geradores da violência. Não investimos na base.
O antropólogo e educador Darcy Ribeiro profetizou: “Se os governadores não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”. O futuro chegou e a conta é impagável.
Nossas crianças e jovens da periferia frequentam escolas precárias, com currículos desconectados da realidade, professores adoecidos e desvalorizados. Faltam espaços de convivência, falta cultura, falta lazer, falta dignidade. Quando não oferecemos a Paulo Freire e sua pedagogia da autonomia, entregamos essa juventude à pedagogia da violência. Sem formação humanística e de valores, sem perspectiva de futuro, o crime deixa de ser uma escolha moral e passa a ser, tragicamente, uma estratégia de sobrevivência ou de pertencimento.
E quando a pena acaba? O que fazemos com o egresso do sistema penitenciário? A sociedade, hipócrita, exige que ele “ande na linha”, mas lhe nega o chão para caminhar. O carimbo de “ex-presidiário” é uma tatuagem social que fecha portas de emprego e empurra o indivíduo para o subemprego ou, inevitavelmente, de volta ao crime.
Temos, portanto, a fórmula perfeita para dar tudo errado:
Precisamos de um novo pacto civilizatório. A mudança começa na cultura, na percepção de que segurança pública não se faz apenas com polícia, mas com cidadania. Precisamos parar de enxugar gelo e começar a fechar a torneira da desigualdade.
É urgente investir na educação integral, na valorização do professor e na criação de espaços comunitários saudáveis. É preciso olhar para o egresso não como um monstro, mas como alguém que, tendo pago sua dívida, merece a chance de reescrever sua história. Enquanto continuarmos a apostar na vingança institucionalizada travestida de justiça, continuaremos a ser reféns do nosso próprio fracasso.
Menos grades, mais escolas. Menos preconceito, mais oportunidades. Ou mudamos a lógica, ou continuaremos a enterrar nosso futuro.
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