Nascida no seio dos movimentos de luta por direitos civis, a frase “Nada Sobre Nós Sem Nós” (em inglês, “Nothing About Us Without Us”) consolidou-se como lema central do movimento global das pessoas com deficiência a partir da década de 1980. Ativistas da organização Disabled People South Africa (Pessoas com Deficiência da África do Sul) e, posteriormente, da Disabled Peoples’ International (Organização Mundial das Pessoas com Deficiência) popularizaram o brado como uma resposta contundente a séculos de políticas e práticas assistencialistas, médicas e caridosas que tratavam as pessoas com deficiência como objetos de cuidado, e não como sujeitos de direitos.
O contexto era de uma luta ferrenha contra o modelo médico da deficiência, que a enxergava como uma tragédia pessoal a ser curada ou consertada. Em seu lugar, os ativistas propuseram o modelo social, que compreende a deficiência como o resultado da interação entre as pessoas com impedimentos e as barreiras atitudinais e arquitetônicas impostas pela sociedade. Sob essa nova ótica, o “problema” não reside no indivíduo, mas em um mundo que não é projetado para acolher a diversidade humana.
“Nada Sobre Nós Sem Nós” tornou-se, assim, a síntese da exigência por autodeterminação. Significava o fim da era em que médicos, terapeutas, acadêmicos, políticos e especialistas, por mais bem-intencionados que fossem, detinham o monopólio da verdade e do poder de decisão sobre os corpos, as mentes e os futuros de toda uma população. Era a reivindicação do protagonismo, a afirmação de que a experiência vivida é uma forma de conhecimento tão ou mais legítima que o saber técnico.
Embora não haja um único símbolo visual universalmente consagrado que represente a expressão, o próprio lema tornou-se o mais potente dos emblemas. Sua força reside na clareza, na simplicidade e na intransigência. Ele é, em si, um símbolo da quebra do silêncio e da retomada da narrativa.
A ausência de um ícone específico talvez reforce a mensagem central: o protagonismo não pode ser delegado ou representado por uma imagem estática; ele é exercido na participação ativa, na presença nos conselhos, nos comitês, nas conferências, na formulação de leis e políticas públicas. O símbolo é a cadeira vazia que passa a ser ocupada, o microfone que é empunhado pela própria pessoa, a transformação do objeto de estudo em pesquisador e autor.
Paradoxalmente, a força e a legitimidade da expressão “Nada Sobre Nós Sem Nós” também a tornaram vulnerável a apropriações indevidas e ao esvaziamento de seu potencial transformador. O risco da cooptação é real e se manifesta de diversas formas:
Quando mal utilizada, a expressão que nasceu para combater o poder do saber técnico sobre a vivência, pode acabar servindo a uma nova elite, agora interna ao próprio movimento, ou simplesmente como um verniz de legitimidade para as mesmas estruturas de poder que deveria combater.
Leonardo Duart Bastos
Presidente do CEI Campinas
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