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Saci-pererê, mula-sem-cabeça e a sociocracia: dois mitos e uma verdade

Autor: CEI Campinas Data: 29/08/2025

Muitos de nós já fomos expostos, em algum momento, nas nossas carreiras à dinâmica das ”duas verdades e uma mentira”, que é uma forma de engajar participantes durante atividades em grupo, e pode ser uma intervenção para formar equipes (Jankins, 2021). 

A proposta nesta reflexão é usar o modelo da dinâmica “1 verdade e 2 mentiras” de Alice Jankins (2021), como quebra-gelo, para abrir a discussão sobre o que é mito e o que é concreto no título deste artigo. Então vamos lá.

  • Saci-pererê? – Mito!
  • Mula-sem-cabeça? – Mito!
  • E a sociocracia?

Para responder essa pergunta, se investe o esforço de decupar¹, da forma mais nítida e compreensível, o conceito de Sociocracia usado na gestão de várias instituições, segundo a organização Sociocracy For All (Sociocracia para todes, no site em português). 

Sociocracia (ou “governança dinâmica”) é um jeito de organizar decisões e o trabalho em grupo de forma justa e eficiente. Em vez de um chefe decidir sozinho ou só a maioria votar, todas as pessoas participam e precisam dizer se existem ou não objeções, ou seja, se podem seguir com a decisão. Se um participante tiver uma objeção com motivos técnicos ou significativos, o grupo/círculo dialoga para ajustar até todos concordarem, mesmo que não se identifiquem plenamente com a ideia. Trata-se de uma forma de administrar com consentimento, transparência, responsabilidade e feedback contínuo, valorizando a voz de todos. 

Como funciona a sociocracia em uma equipe técnica interdisciplinar?

Imagine uma equipe interdisciplinar composta por um psicólogo, uma assistente social e 9 cuidadores sociais. Este grupo forma um círculo. E este círculo tem:

  • Um propósito, por exemplo: “Cuidar do bem-estar de idosos e pessoas com deficiência”;
  • Autoridade sobre as ações do dia a dia desse propósito;
  • Papéis bem definidos (com objetivo de alcançar o propósito)

Como se dão as reuniões deste círculo e a tomada de decisões por consentimento?

O grupo precisa decidir algo, como alterar um protocolo. Na reunião de círculo, alguém faz uma proposta afim de:

  • Entender o problema (“por que mudar?”);
  • Explorar ideias (“como mudar?”);
  • Propor uma solução (“vamos tentar isso”),

Então cada técnico um dos onze técnicos diz se não tem objeção. Se alguém tiver, fala o que preocupa e sugere ajustes. A ideia é: “isso é bom o suficiente por enquanto e seguro para experimentar?” Se sim, a proposta está aprovada.

Para que a equipe aprenda e se aprimore, este círculo deve se reunir regularmente para ver como estão indo, dar feedback e fazer ajustes. Esse retorno contínuo ajuda a equipe ficar ainda mais harmoniosa com o tempo.

 Em uma organização podem existir vários círculos e por isso é importante que atentemos as possibilidades de conexão entre eles. No caso de existir mais círculos (por exemplo, um grupo que define políticas gerais e outro que cuida da implementação), existe uma conexão. Sendo assim, cada círculo escolhe três ou duas pessoas que fazem parte do círculo geral. Assim, a comunicação flui e todos sabem o que está acontecendo nos outros grupos.

Podemos explicar que o modelo de sociocracia:

  • É uma forma de garantir que todas as vozes sejam ouvidas, não só a maioria ou o chefe;
  • Ajuda a tomar decisões mais seguras e equilibradas, porque ninguém se sente excluído;
  • Funciona bem em pequenos grupos, e por isso é ideal para equipes técnicas e multidisciplinares, onde cada pessoa tem uma função diferente.

Simulação de cenário aplicado ao círculo “equipe técnica interdisciplinar”

Suponha que parte da equipe perceba que um dos usuários não está respondendo bem ao plano de atendimento:

  • Esse grupo compartilha as observações.
  • A equipe dialoga sobre as hipóteses. Ex.: Talvez o usuário precise de outro tipo de apoio.
  • Propostas de soluções: alterar a frequência das visitas? Envolver família? Ajustar atividades?
  • Uma proposta é definida: “Vamos mudar a abordagem para incluir sessões em família”.
  • A equipe verifica se alguém tem alguma objeção técnica ou significativa.
  • Se ninguém tiver, seguem o novo plano e depois avaliam juntos se deu certo.
  • Na próxima reunião do círculo, se faz uma rodada de atualização, na qual todos compartilham como acham que está funcionando e ajustam conforme o necessário.

O processo repete sempre, assim todos participam e aprendem com o que dá certo e com o que pode melhorar.

Em resumo, sociocracia é: 

  • Consentimento, ou seja, decidir quando ninguém tem objeções razoáveis.
  • Círculos, os pequenos grupos com propósito e autoridade definidos.
  • Papéis, nos quais cada pessoa tem tarefas bem claras dentro do círculo.
  • Feedback contínuo e reuniões para aprender e melhorar constantemente.
  • Ligação entre diferentes círculos para comunicação fluida.

Este modelo se mostra eficaz para equipes técnicas e multidisciplinares, porque respeita a experiência de cada profissional, garante que todas as vozes sejam consideradas, facilita colaboração e melhora contínua.

Como pode funcionar um círculo na prática?

  1. Definição de papéis no Círculo

Cada participante assume funções claras:

  • Facilitador(a): coordena as reuniões do círculo (pode ser rotativo).
  • Secretário(a): registrar decisões, prazos e encaminhamentos.
  • Responsáveis de comunicação com outros círculos: repassa articulações e decisões à gestão.
  • Responsáveis por tarefas específicas: ex: “visitas”, “relatórios”, “acompanhamento familiar”.
  1. Reuniões com roda de consentimento

As decisões seguem o método sociocrático:

  • Roda de escuta ou reunião de atualização: cada um compartilha o que observou na última visita ou atendimento.
  • Propostas de ação: alguém apresenta uma ideia para resolver uma situação (por exemplo, inserir acompanhamento psicológico na rede de saúde ao usuário).
  • Rodada de esclarecimentos: perguntas para entender melhor a proposta.
  • Rodada de reação: cada pessoa comenta o que achou da proposta.
  • Rodada de consentimento: alguém tem objeções fundamentadas? Se sim: ajuste-se à proposta. Se não: aprova-se e executa-se.
  1. Tomada de decisão com consentimento

Exemplo: A cuidadora percebe que uma idosa atendida está com dificuldades de locomoção, e o ambiente está inadequado (riscos de queda).

Etapas:

  • A cuidadora compartilha a observação.
  • A assistente social propõe uma articulação com a família extensa sobre a possibilidade de melhorias na casa da idosa.
  • O psicólogo propõe acolhimento à cuidadora familiar que demonstra sinais de sobrecarga.
  • A equipe decide, por consentimento, um plano de ação: com tarefas distribuídas e retorno para avaliação.
  1. Revisão e Feedback

Reunião semanal de círculo para revisar:

  • O que funcionou bem?
  • O que precisa melhorar?
  • As ações respeitaram os princípios do SUAS?
  • O usuário ou cuidador familiar percebeu melhorias?
  1. Conexão com outros Círculos

Dois a três membros de um círculo participam do círculo geral da unidade (ex: Coordenador, assistente social ou psicólogo e cuidadora social). Assim, as necessidades do território e dos usuários chegam à gestão e os direcionamentos da gestão voltam com clareza para a equipe.

Valores sociocráticos aplicados ao SUAS: Princípios Sociocráticos e Alinhamento com o SUAS

  • Consentimento – Participação democrática dos profissionais e respeito à ética.
  • Equivalência (todas as vozes contam) – Trabalho em equipe interdisciplinar e escuta da população.
  • Transparência – Registro e compartilhamento de decisões e avaliações.
  • Responsabilidade distribuída – Clareza de papéis no Plano de Acompanhamento.
  • Círculos interconectados – Articulação com a rede socioassistencial

“Tá bom, Diogo. Mas como eu explico o que é sociocracia para as crianças do 06 a 14 (SCFV)?”

Possível resposta: Sociocracia não é bagunça, é trabalho em equipe com responsabilidade! – Imagina que você está num grupo com seus amigos para cuidar de um jardim. Se cada um fizer o que quiser, sem conversar, pode virar uma confusão: um planta uma flor, outro arranca sem querer, outro joga água demais. Sociocracia é um jeito de o grupo trabalhar junto combinando tudo antes, escutando todos, e dividindo bem as responsabilidades. Por exemplo: “Você cuida das plantas pequenas, eu rego, o outro tira as folhas secas” Cada um tem um papel! 

E o mais legal: ninguém manda sozinho. As decisões são feitas com o grupo todo junto, conversando, até todo mundo dizer: “Tá bom assim pra mim” (isso é o que chamamos de consentimento).

Então, não é fazer o que quiser, mas sim decidir juntos e cada um fazer sua parte com cuidado. Isso é o que a organização Sociocracy for All ensina: uma equipe forte é aquela onde todo mundo ajuda, participa e se responsabiliza!

Considerações Finais

A sociocracia, muitas vezes vista como algo complexo ou distante da realidade dos serviços públicos, demonstra-se como uma prática concreta, aplicável e transformadora, especialmente no campo da Assistência Social. Sua implementação em equipes técnicas e interdisciplinares, como as que atuam na Proteção Social Especial no Domicílio, mostra que é possível distribuir responsabilidades sem perder eficiência, garantindo escuta, corresponsabilidade e clareza nas ações.

Ao adotar práticas sociocráticas, os serviços do SUAS fortalecem a articulação entre profissionais e usuários, promovendo decisões mais participativas e ajustadas à realidade do território. Essa abordagem também favorece o desenvolvimento profissional e emocional das equipes, que passam a trabalhar de forma mais horizontal, colaborativa e transparente.

O exemplo do CEI Campinas, com a adoção de um manual de governança inspirado na sociocracia, revela que essa metodologia não é apenas uma proposta teórica, mas uma ferramenta prática de gestão que favorece o protagonismo institucional e a valorização dos trabalhadores. Com isso, reafirma-se que a sociocracia não é um mito, mas uma possibilidade real de transformação organizacional no SUAS.

REFERÊNCIAS:

JANKINS, Alice. Quebra-gelo: 1 verdade, 2 mentiras. Miroverse, 2021. Disponível em: https://miro.com/pt/modelos/quebra-gelo-1-verdade-2-mentiras/. Acesso em: 26 jul. 2025.

CENTRO EDUCACIONAL INTEGRADO – CEI Campinas. Revolução ética e transparência na governança do CEI. 27 dez. 2024. Disponível em:

https://ceicampinas.org.br/2024/12/27/revolucao-etica-e-transparencia-na-governanca-do-ce i/.  Acesso em: 26 jul. 2025.

RAU, Ted. What is sociocracy? Sociocracy For All. YouTube, 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=KNcVLJy0i2k. Acesso em: 26 jul. 2025. 

COHOUSING. Sociocracy. Disponível em: https://www.cohousing.org/sociocracy/. Acesso em: 26 jul. 2025.

SOCIROCRACY FOR ALL. What is sociocracy? Fórum Oficial. Disponível em: https://forums.sociocracyforall.org/t/what-is-sociocracy. Acesso em: 26 jul. 2025.