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Quebre as correntes da percepção: nossa sociedade de dois sentidos e o chamado inclusivo do olfato

Autor: CEI Campinas Data: 22/08/2025

Nossa realidade é uma construção. Uma paisagem moldada não pelo que o mundo é em sua totalidade, mas pela forma como o percebemos. E essa percepção, a base sobre a qual erguemos conceitos, ideias e a própria organização social, é tiranicamente dominada por apenas dois de nossos cinco sentidos: a audição e a visão. Vivemos em um mundo narrado e enquadrado, onde a oralidade e a imagem reinam, deixando uma vasta gama de experiências humanas na penumbra. É crucial reconhecer que esta hegemonia sensorial não é neutra; ela cria barreiras invisíveis, excluindo ativamente aqueles cujas experiências sensoriais se desviam da norma.

A primazia da audição é fundamental. É através da oralidade que o mundo ganha contornos conceituais. A palavra falada condensa ideias complexas, sistematiza o pensamento e cria as categorias pelas quais navegamos a realidade. Conceitos como “justiça”, “amor” e “sociedade” são construções auditivas, passadas e refinadas através do diálogo.

A visão, embora pareça um sentido direto e imediato, também é cativa da oralidade. Damos nomes às cores e às formas para que possam ser compreendidas e comunicadas. Uma tonalidade de azul só se distingue de outra em nosso entendimento coletivo porque a linguagem a nomeia, a classifica. A imagem, por mais poderosa que seja, é frequentemente emoldurada e explicada pela legenda, pela narração, pela palavra que a precede e a sucede. Esta dependência da audição e da visão como principais vias de acesso ao conhecimento e à participação social marginaliza indivíduos com deficiências sensoriais, neurodivergências e diferentes perfis sensoriais.

Este duopólio sensorial, no entanto, cria um profundo e excludente “recorte” do mundo. Ao supervalorizar a audição e a visão, nossa sociedade se organiza para um tipo específico de funcionamento neurológico, marginalizando e invalidando todos aqueles que percebem o universo de maneiras diferentes. Ambientes de trabalho, escolas e espaços públicos são projetados para o ouvinte e o espectador, gerando barreiras sensoriais que limitam a integralidade do sujeito. Para o neurodivergente, o hipersensível ou simplesmente aquele com uma afinidade sensorial distinta, o mundo pode se tornar um lugar de constante ruído e desconforto, onde sua forma de apreender a realidade é sistematicamente ignorada e desvalorizada. A inclusão verdadeira exige um olhar atento para as diversas formas de experiência sensorial.

Surge então a pergunta inevitável: se estamos no mundo através de cinco portais sensoriais, por que insistimos em compreender e organizar nossa existência a partir de apenas dois? E se começássemos a explorar os territórios negligenciados de nossos outros sentidos?

O Despertar Inclusivo do Olfato: Um Sentido de Memória e Emoção

Pensemos no olfato, tão relegado ao segundo plano, tão ausente das nossas construções intelectuais e, ainda assim, tão profundamente entrelaçado com nosso cotidiano e nossas emoções. Quem nunca foi transportado para um momento específico por um aroma fugaz? O “cheiro de infância” evocado pelo bolo assando, a fragrância de um perfume que recorda uma pessoa amada, ou a repulsa instintiva a algo que “não cheira bem”. Ampliar nossa percepção para além da visão e audição abre caminhos para incluir aqueles que podem ter essas vias sensoriais comprometidas ou que experimentam o mundo de maneira predominantemente não-visual e não-auditiva.

A ciência confirma essa sabedoria popular. O bulbo olfatório possui uma linha direta com a amígdala e o hipocampo, os centros de processamento de emoções e memórias do cérebro. Diferentemente da visão e da audição, cujos sinais são primeiro processados pelo tálamo (o “quadro de distribuição” do cérebro), os cheiros têm acesso VIP às nossas emoções mais primárias. Para indivíduos com deficiência visual, por exemplo, o olfato pode ser uma fonte crucial de informação sobre o ambiente, as pessoas e as experiências.

Ignoramos esse sentido a nosso próprio risco. Pesquisas indicam que uma porcentagem considerável da população experiencia alucinações olfativas – a percepção de cheiros que não estão presentes. Este fenômeno, muitas vezes desconsiderado, revela a complexa atividade cerebral ligada ao olfato e sua importância em nossa saúde neurológica. A negligência do olfato na nossa organização social reflete uma falta de consideração pelas diversas maneiras pelas quais o cérebro processa informações.

No nosso dia a dia, controlamos meticulosamente o que vemos e ouvimos. Nomes de ruas, placas de trânsito, cores de paredes, playlists – tudo é curado. Mas os cheiros dos lugares que frequentamos são, na maioria das vezes, acidentais, a não ser que se tornem um incômodo. Mapeamos cidades por seus marcos visuais, mas raramente por suas paisagens olfativas. Esta padronização sensorial dificulta a navegação e a experiência para aqueles que dependem mais intensamente de outros sentidos.

Rumo a uma Sociedade Verdadeiramente Polissensorial e Inclusiva

E se começássemos a fazer diferente? E se a arquitetura e o urbanismo passassem a considerar o “urbanismo olfativo”, projetando espaços públicos que não apenas agradam aos olhos, mas que também contam histórias através dos cheiros? Jardins com plantas aromáticas específicas para cada estação, mercados que celebram seus odores característicos, bibliotecas com um leve aroma de madeira e papel para induzir à calma e concentração. Um design verdadeiramente inclusivo consideraria as paisagens olfativas como parte integrante da acessibilidade.

E se a educação explorasse o potencial do aprendizado sinestésico, associando conceitos a aromas para fortalecer a memória? Esta abordagem beneficiaria todos os alunos, mas seria particularmente valiosa para aqueles com estilos de aprendizagem não predominantemente visuais ou auditivos. E se a arte, como já fazem alguns artistas olfativos, nos convidasse a “cheirar” uma exposição, evocando narrativas e sentimentos através de fragrâncias? A arte polissensorial oferece novas formas de engajamento e apreciação, tornando a experiência artística mais acessível a um público mais amplo.

Valorizar o olfato e os outros sentidos “menores” – tato e paladar – não é um mero exercício de hedonismo. É um ato político e profundamente inclusivo. É reconhecer que a experiência humana é vasta e multifacetada. É construir uma sociedade que não apenas tolera, mas celebra as diferentes formas de perceber e interagir com o mundo. Ao integrar uma perspectiva polissensorial, abrimos espaço para a plena participação de todos os indivíduos, independentemente de suas particularidades sensoriais.

Ao abrirmos mão do controle exclusivo da oralidade e da visão, permitimos que a integralidade do sujeito se manifeste. Começamos a construir uma realidade mais rica, mais texturizada, mais democrática e, em última análise, mais humana. A polissensorialidade não é um luxo, mas uma necessidade para uma sociedade justa e inclusiva. O convite está no ar: é hora de parar de apenas ver e ouvir o mundo, e começar, verdadeiramente, a senti-lo em toda a sua diversidade sensorial.

Leonardo Duart Bastos
Presidente do CEI Campinas