No grande palco da questão social brasileira, duas peças distintas disputam o protagonismo. De um lado, o drama antigo e recorrente do assistencialismo: a caridade, o favor, a entrega pontual que aplaca a fome imediata, mas silencia a voz de quem a recebe. Do outro, a narrativa complexa e potente da Política de Assistência Social como garantia de direito: uma construção histórica que busca transformar o sujeito de necessidade em sujeito de direitos. A escolha entre um e outro define não apenas como ajudamos, mas quem reconhecemos como cidadão.
O assistencialismo, ainda que movido por boas intenções, opera sob a lógica da tutela. É uma relação vertical, um monólogo onde uma voz – a de quem doa – define a carência e oferece a solução, quase sempre paliativa. Nesta dinâmica, o indivíduo em situação de vulnerabilidade é visto como um objeto passivo, um corpo a ser alimentado, vestido ou abrigado. Sua história, seus saberes, seus desejos e, principalmente, os marcadores sociais que definem sua trajetória – a cor da sua pele, seu gênero, o território onde vive – são apagados. Ele é reduzido à sua necessidade imediata, congelado em um tempo-espaço de urgência que nunca se torna futuro.
É aqui que o pensamento do filósofo russo Mikhail Bakhtin nos oferece uma lente poderosa. Para Bakhtin, a essência da existência humana é o diálogo. Somos constituídos pela interação de vozes, pelas respostas que damos ao mundo e que o mundo nos dá. O assistencialismo é fundamentalmente monológico. Ele impõe uma única verdade e sufoca a polifonia, a multiplicidade de vozes e consciências que compõem a realidade social.
Em oposição a isso, a política de assistência social, consolidada no Brasil pelo Sistema Único de Assistência Social (SUAS), deve ser entendida como um processo de construção de uma Cidadania Dialógica.
Este é o conceito que propomos: a Cidadania Dialógica não é um status concedido por uma lei, mas um processo contínuo de emancipação histórica do sujeito. É o direito de ter voz e de ser ouvido. É o reconhecimento de que cada indivíduo é um “enunciado” vivo, uma resposta única e complexa, moldada por uma vida inteira de diálogos – ou da falta deles.
A Cidadania Dialógica acontece quando:
Em última análise, a disputa não é entre dar uma cesta básica e garantir uma transferência de renda. A verdadeira dicotomia está entre uma prática que cala e uma política que convoca ao diálogo. O assistencialismo oferece respostas prontas. A Política de Assistência Social, em sua concepção mais radical e correta, deve fazer perguntas, provocar, e assim, construir cidadania.
A meta final da Cidadania Dialógica não é a erradicação da necessidade, mas a afirmação da existência. É garantir que cada cidadão, independentemente de sua condição, possa tomar sua palavra no grande diálogo da nação, não como um eco fraco e suplicante, mas com a voz plena de quem tem história, dignidade e, acima de tudo, direito a ter direitos.
Leonardo Duart Bastos
Presidente do CEI Campinas