Autor: Diogo Ribeiro Alves – Psicologo do Serviço de proteção social especial no domicilio do CEI
A frustração é um sentimento que surge quando uma expectativa não é correspondida, um objetivo não é alcançado ou um obstáculo impede o caminho. Embora possa gerar decepção, tristeza, raiva ou ansiedade, ela oferece aprendizado e crescimento. A frustração sinaliza que algo não funcionou como esperado, impulsionando a reflexão sobre o que deu errado e como fazer diferente da próxima vez. É uma oportunidade de aprender com os erros e adquirir novas habilidades ou conhecimentos.
Este texto propõe uma perspectiva dentro da “psicologia da frustração”, entendida como a investigação dos processos emocionais e comportamentais diante de impedimentos ao alcance de metas pessoais.
O termo “psicologia da frustração” não é um conceito técnico consagrado como, por exemplo, psicologia do desenvolvimento ou psicologia social. No entanto, ele pode ser usado de forma válida e compreensível para se referir ao campo da psicologia, que estuda a frustração, suas causas, manifestações, impactos e modos de manejo.
O que a psicologia diz sobre a frustração?
A frustração é um estado emocional que ocorre quando há um bloqueio ou impedimento para atingir um objetivo, satisfazer uma necessidade ou desejo. É estudada e descrita de diversas formas em abordagens dentro da psicologia:
A frustração pode ser compreendida como uma resposta emocional e comportamental diante da não concretização de um objetivo, da ausência de reforço esperado ou da obstrução de uma necessidade.
Embora o termo “psicologia da frustração” não se configure como um campo teórico consolidado, ele pode ser utilizado para descrever um conjunto de conhecimentos produzidos por diferentes abordagens psicológicas sobre a maneira como indivíduos experimentam, expressam e manejam a frustração ao longo do desenvolvimento.
Do ponto de vista do desenvolvimento humano, a frustração é um elemento fundamental e inevitável nos processos de amadurecimento. A criança pequena, por exemplo, possui recursos limitados para lidar com a frustração, expressando-a muitas vezes por meio de comportamentos como choro, birra ou agressividade. À medida que crescemos, adquirimos, por meio da socialização e da mediação de cuidadores, habilidades emocionais e cognitivas para tolerar esperas, lidar com perdas e negociar objetivos.
A capacidade de adiar a gratificação, demonstrada classicamente no “experimento do marshmallow” (Mischel et al., 1972), está diretamente relacionada à construção de tolerância à frustração e ao desenvolvimento do autocontrole, aspectos essenciais para a vida em sociedade. O link do vídeo de uma simulação do experimento está nas referências no final do texto.
Além disso, contextos empobrecidos de cuidado ou marcados por negligência, punição excessiva ou falta de previsibilidade nas rotinas tendem a dificultar o desenvolvimento de estratégias saudáveis para o manejo da frustração.
Sob a ótica da análise do comportamento, a frustração ocorre frequentemente em situações nas quais há uma quebra na expectativa de reforçamento. Quando um comportamento previamente reforçado é seguido por ausência de reforço, é comum o surgimento de respostas emocionais, como a raiva, a inquietação ou a agressividade. Esse é o fenômeno descrito no modelo frustração-agressão (Dollard et al., 1939).
Além disso, a frustração pode gerar respostas alternativas como:
A Análise do Comportamento propõe que a tolerância à frustração pode ser ensinada por meio de treinamento em habilidades sociais e reforçamento diferencial de comportamentos mais adaptativos diante da ausência de reforços imediatos.
Na abordagem cognitivo-comportamental, a frustração está diretamente relacionada à forma como os indivíduos interpretam os eventos e avaliam seus resultados. Pessoas com baixa tolerância à frustração tendem a apresentar crenças irreais como:
Essas distorções cognitivas geram emoções negativas intensas e desadaptativas, como raiva, tristeza ou ansiedade. Nessa abordagem busca-se promover a reestruturação cognitiva, ensinando o sujeito a identificar e modificar essas crenças, aumentando sua resiliência emocional e capacidade de lidar com situações frustrantes de maneira funcional, tendo técnicas de exposição gradual ao desconforto e ensino de autorregulação emocional que podem ser utilizadas para promover maior tolerância à frustração.
No trabalho das equipes interdisciplinares na rede socioassistencial, são exemplos de aplicações da “psicologia da frustração” na psicoeducação em alguns contextos. Como por exemplo:
Em contextos de vulnerabilidade social e atendimentos no Sistema Único de Assistência Social (SUAS), a frustração aparece de maneira recorrente: trabalhadores e famílias enfrentam a falta de acesso a políticas públicas, discriminação, desemprego e injustiças sociais, o que pode gerar comportamentos de evitação, agressividade, passividade ou desistência.
Acreditamos que uma Psicologia da Frustração, enquanto estudo dos campos da psicologia, que analisam o fenômeno da frustração, suas causas, manifestações, impactos e modos de manejo, podem:
Na educação institucional, a “psicologia da frustração” é especialmente útil para lidar com temas como:
São exemplos de aplicação na educação institucional:
Na abordagem do desenvolvimento do sujeito, a Psicologia da Frustração pode promover um ambiente de aprendizagem contínua, que reconheça que falhar e frustrar-se faz parte do crescimento e treinamentos de liderança com foco na criação de cultura de segurança psicológica, onde o erro é visto como parte do processo.
Na vida adulta, o primeiro passo é reconhecer a frustração e aceitar o sentimento, em vez de negá-lo ou reprimi-lo. Entender que é uma emoção natural e parte da experiência humana. Podendo assim:
A frustração é um componente vital do desenvolvimento humano. Ao invés de ser vista como um fracasso, ela pode ser encarada como uma forte ferramenta para o crescimento pessoal, aprimorando nossa capacidade de adaptação e autoconhecimento. Aprendermos a nos apropriar das frustrações é fundamental para construir uma existência mais plena e equilibrada.
E sim, podemos abraçar as frustrações. Ao enfrentar e superar frustrações, aprendemos a nos adaptarmos às mudanças, a persistirmos diante dos desafios e a nos recuperar de contratempos. Desenvolvemos a capacidade de “dar a volta por cima”, que é fundamental para a saúde mental e o bem-estar.
A frustração nos força a olhar para dentro, entender nossas reações emocionais, identificar a raiz da nossa decepção, reconhecer nossos limites e nossas prioridades. Se nos deparamos com um obstáculo que causa frustração, podemos nos desafiar a pensar de forma criativa e a buscar novas estratégias para alcançar nossos objetivos. Ela pode estimular nosso autoconhecimento nos força a olhar para dentro, entender nossas reações emocionais, identificar a raiz da nossa decepção e reconhecer nossos limites e nossas prioridades.
Longe de serem apenas experiências negativas a serem evitadas, as frustrações, quando bem gerenciadas, atuam como catalisadores para o crescimento e o aprendizado.
Teste do marshmallow https://www.youtube.com/watch?v=OKNu1qjgXaA